A dinâmica da paternidade no Brasil contemporâneo é marcada por uma percepção paradoxal, conforme aponta um estudo recente do Instituto Nexus. Enquanto uma parcela significativa da população brasileira — metade dos entrevistados — acredita que os pais da atualidade estão menos presentes na criação dos filhos do que nas gerações anteriores, a importância do papel paterno na vida das crianças e adolescentes é quase unanimidade, sendo classificada como alta ou muito alta por oito em cada dez brasileiros.
Essa dualidade reflete um cenário complexo de expectativas sociais e realidades familiares, onde o discurso sobre a relevância da figura paterna avança, mas o comportamento prático ainda enfrenta desafios. A pesquisa, que ouviu 2.013 pessoas de diversas regiões do país, lança luz sobre as diferentes visões de homens e mulheres, bem como de distintas faixas etárias, acerca da participação e do significado da paternidade.
Percepções Divergentes Sobre a Presença Paterna
A análise dos dados revela nuances importantes na forma como a presença dos pais é percebida. Entre as mulheres, 56% expressam a crença de que os pais participam menos hoje do que no passado, enquanto apenas 31% delas observam uma maior presença. Já entre os homens, a percepção se divide de forma mais equitativa: 44% acreditam que a participação paterna aumentou, e outros 44% afirmam que ela diminuiu, indicando uma visão menos homogênea dentro do próprio grupo masculino.
Essa divergência de opiniões entre os gêneros pode estar ligada a diferentes expectativas sociais e experiências pessoais. Tradicionalmente, a mulher tem sido a principal cuidadora, e sua observação sobre a participação masculina pode ser mais crítica ou baseada em uma comparação direta com o modelo de maternidade. Para os homens, a percepção de maior presença pode refletir um esforço consciente para se desvincular do papel de mero provedor, buscando uma participação mais ativa na rotina familiar.
Quando o assunto é a importância da paternidade, a concordância é maior, mas ainda com variações. 81% dos homens classificam a importância paterna como alta ou muito alta para o desenvolvimento dos filhos, um índice ligeiramente superior aos 73% registrados entre as mulheres. A pesquisa também destaca uma diferença geracional: 82% dos jovens entre 16 e 24 anos consideram o papel do pai fundamental, enquanto esse reconhecimento diminui para 62% entre as pessoas com 60 anos ou mais. Essa queda pode indicar uma mudança histórica na valorização da figura paterna, com as gerações mais novas atribuindo-lhe um peso maior no desenvolvimento emocional e social dos filhos.
O Que Significa Ser um ‘Bom Pai’ para os Brasileiros
O estudo do Instituto Nexus não se limitou a quantificar a presença e a importância, mas também buscou entender o que a população brasileira define como as características essenciais de um “bom pai”. A principal qualidade apontada por 49% dos entrevistados é “ser presente no dia a dia”. Essa constatação sublinha uma transformação cultural significativa, afastando-se da antiga imagem do pai como figura distante e provedora, em direção a um modelo mais participativo e engajado na rotina familiar.
Outras características importantes incluem educar e orientar com limites (19%), demonstrar carinho e afeto (8%), dar exemplo (7%) e, por último, oferecer segurança financeira (3%). A prioridade dada à presença diária é ainda mais acentuada entre as mulheres, com 53% delas considerando-a o atributo mais relevante, em comparação com 45% dos homens. Por outro lado, a imposição de limites na educação é mais valorizada pelo público masculino (21%) do que pelo feminino (17%).
As faixas etárias também apresentam distinções na definição de um bom pai. O convívio paterno no dia a dia é considerado mais importante pelos jovens de 16 a 24 anos (55%) e pela população de 25 a 40 anos (56%). Já os indivíduos mais velhos, especialmente aqueles entre 41 e 49 anos (24%) e com 60 anos ou mais (26%), tendem a valorizar mais a educação e a orientação como características primordiais. Essa diferença pode refletir as experiências e os modelos de paternidade predominantes em suas respectivas épocas de criação.
O Desafio da Paternidade Ativa: Entre o Discurso e a Prática
A pesquisa do Instituto Nexus, conforme sintetizado por Marcelo Tokarski, CEO da instituição, evidencia que “o brasileiro já consolidou a ideia de que o bom pai é aquele presente no dia a dia, deixando para trás a figura do mero provedor financeiro. O desafio agora está na prática”. Essa observação é crucial para entender o cenário atual da paternidade no país. A sociedade brasileira, impulsionada por mudanças culturais e pela crescente participação feminina no mercado de trabalho, tem redefinido o papel do pai, exigindo uma atuação mais próxima e emocionalmente engajada.
No entanto, a transição de um modelo tradicional para um mais participativo não ocorre sem atritos. A constatação de que metade da população ainda percebe uma menor participação paterna em comparação com o passado sugere que, embora o discurso sobre a paternidade ativa tenha ganhado força, a mudança de comportamento dentro dos lares ainda não se concretizou plenamente. “O fato de metade da população enxergar os pais de hoje como menos participativos do que os do passado mostra que o discurso avançou mais rápido do que a mudança real de comportamento dentro de casa”, complementa Tokarski. Este descompasso aponta para a necessidade de políticas públicas, campanhas de conscientização e um contínuo diálogo social que incentivem e apoiem os pais a exercerem uma paternidade mais presente e participativa, beneficiando o desenvolvimento integral dos filhos e fortalecendo os laços familiares.
Para aprofundar-se em estudos sobre família e sociedade no Brasil, visite o site do Ipea.
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