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Haiti na Copa: a esperança de uma nação em meio a desafios e laços com o Brasil

Imagem gerada com IA
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O cenário do futebol mundial se prepara para um encontro que transcende as quatro linhas, colocando frente a frente a seleção brasileira e o Haiti. Na próxima sexta-feira, dia 19, às 21h30 (horário de Brasília), na Filadélfia, Estados Unidos, o pequeno país caribenho, que figura na lanterna do ranking da Fifa, enfrentará o Brasil, sexto colocado, em uma partida válida pelo Grupo C da Copa do Mundo. Mais do que um jogo, este confronto simboliza a resiliência e a esperança de uma nação que busca no esporte um alento em meio a uma das mais graves crises políticas e humanitárias de sua história.

A participação haitiana no Mundial, um feito histórico após 50 anos desde sua última aparição em 1974, é um testemunho da capacidade do futebol de unir e inspirar. Os “Les Grenadiers”, como são carinhosamente chamados, entrarão em campo com um novo uniforme, sem a referência à luta anticolonial que a Fifa exigiu que fosse removida, um ponto de controvérsia que adiciona camadas à narrativa de sua jornada.

O retorno histórico dos Granadeiros ao palco mundial

A classificação do Haiti para a Copa do Mundo de 2026 é um marco. Meio século após sua estreia em 1974, a equipe retorna ao maior palco do futebol em um momento de profunda turbulência interna. A nação caribenha tem enfrentado desastres naturais devastadores, como o terremoto de 2010, e uma persistente instabilidade política e social, tornando a conquista esportiva ainda mais significativa.

Apesar da derrota por 1 a 0 para a Escócia na estreia, no último sábado (13), os Granadeiros demonstraram garra e domínio de bola, mantendo a posse por quase metade do jogo (47%). O meia Jean-Ricner Bellegarde expressou o otimismo da equipe em entrevista à Fifa: “Estou sorrindo porque precisamos manter o pensamento positivo: podemos competir neste nível”. Essa mentalidade reflete a crença de que o futebol pode ser um catalisador de união e celebração para o povo haitiano.

Entre os heróis nacionais, destaca-se o centroavante Duckens Nazon, artilheiro dos Les Grenadiers com 44 gols em mais de 80 jogos. Nascido na Europa, como outros jogadores haitianos, Nazon foi decisivo na classificação, anotando três gols em uma única partida. Ele ressaltou no fim do ano passado que os haitianos mereciam alegria e felicidade, justificando sua dedicação ao time.

Laços que transcendem o campo: Brasil e Haiti

A relação entre Brasil e Haiti vai muito além das quatro linhas. Ela se estende por laços culturais, acolhimento humanitário e ações de solidariedade. Por anos, o Haiti foi um dos países onde a seleção brasileira conquistou mais fãs, com ruas e casas coloridas de verde-amarelo a cada Copa.

Um dos momentos mais emblemáticos dessa relação ocorreu em 2004, quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva convidou o Brasil a levar estrelas como Ronaldo Nazário e Ronaldinho Gaúcho para um amistoso em Porto Príncipe. O “Jogo da Paz” marcou o início de uma campanha de desarmamento após intensos conflitos armados, buscando criar um elo entre a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH), comandada pelo Brasil, e a população local.

Carlos Alberto Parreira, técnico da seleção brasileira na época e campeão mundial em 1994, recorda a emoção daquele dia. “Eram pessoas aglomeradas nas ruas, dos dois lados, em áreas muito pobres, favelas mesmo, mas com sorriso, acenando”, contou. “Eles conheciam todos os jogadores, chamavam pelo nome Ronaldo, Ronaldinho, não paravam. Naquele momento, naquelas horas, o país esqueceu a guerra”, relembrou Parreira.

Os laços de solidariedade se aprofundaram após o terremoto de 2010, que vitimou 200 mil pessoas e deixou 1,5 milhão de desabrigados, incluindo 18 militares brasileiros em Missão de Paz. O Brasil facilitou a entrada de haitianos no país, que hoje lideram a lista de solicitações de refúgio, antecedidos apenas por cubanos e venezuelanos, entre 175 nacionalidades que buscaram abrigo no território nacional entre 2015 e 2024.

Atualmente, o Brasil apoia a criação da Polícia Nacional do Haiti, por meio da formação de agentes, uma das ações mais importantes após a controversa Missão das Nações Unidas. Durante a liderança brasileira na ONU, foram relatadas denúncias de violações de direitos humanos, abusos sexuais e a introdução da cólera no país, com o general Augusto Heleno sendo o primeiro comandante da missão.

A complexa realidade política e a história silenciada do Haiti

A estabilidade no Haiti tem sido historicamente incompatível com interesses estrangeiros e elites locais, um fator de desestabilização contínua, conforme avalia o professor de História Gabriel Léccas, pesquisador da revolução haitiana. Atualmente, o país é governado pelo primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, apoiado pelos Estados Unidos, e convive com grupos políticos armados que controlam a capital.

Léccas, mestre em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), aponta que esse quadro reflete novas relações coloniais impostas por potências e seus interesses econômicos. A independência haitiana em 1804, conquistada por pessoas escravizadas, ainda gera incômodo, a ponto de a própria Fifa vetar a menção à revolta na camisa da seleção, que precisou ser substituída.

“A exigência da retirada da imagem, tanto pelo Comitê Olímpico Internacional [COI], nos Jogos de Inverno, como agora, pela Fifa, está associada ao silenciamento da Revolução Haitiana que vem acontecendo há tempos”, explicou o historiador. Ele vê discriminação na decisão, pontuando que isso não ocorre com outros países, como os Estados Unidos, cuja camisa com listras vermelhas simboliza sua própria independência.

Para Léccas, uma revolução comandada por pessoas negras continua sendo uma ameaça ao poder econômico e um questionamento às hierarquias raciais, mesmo após tanto tempo. “No século 19, as elites escravocratas não queriam que a revolução haitiana inspirasse outras iniciativas na América”, lembrou. “Nos séculos XX e XXI, o Haiti tornou-se símbolo de resistência e de rebeldia dessa comunidade negra afrodescendente diaspórica e isso incomoda grupos que têm interesse em manter as estruturas racistas funcionando”.

Futebol como farol de esperança em tempos turbulentos

Apesar dos desafios históricos e da complexa realidade atual, a participação do Haiti na Copa do Mundo é um farol de esperança. O futebol, com sua capacidade de transcender barreiras e unir pessoas, oferece um momento de celebração e orgulho para uma nação que tanto precisa. A jornada dos Granadeiros no Mundial é um lembrete de que, mesmo nas circunstâncias mais adversas, o espírito humano pode encontrar formas de se expressar e inspirar.

Para acompanhar todos os desdobramentos desta Copa do Mundo, as notícias sobre o Haiti e o Brasil, e análises aprofundadas sobre os temas mais relevantes do cenário nacional e internacional, continue ligado no Região 5 News. Nosso compromisso é trazer informação de qualidade, atualizada e contextualizada, para que você esteja sempre bem informado sobre o que realmente importa.

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