A vida com diabetes vai muito além do gerenciamento físico da doença. Para a maioria dos brasileiros que convivem com a condição, o impacto emocional e social é significativo, gerando ansiedade e uma sensação de isolamento. Diante desse cenário desafiador, a busca por soluções tecnológicas avançadas emerge como um clamor por mais autonomia, previsibilidade e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida.
Uma pesquisa recente, realizada pelo Global Wellness Institute (GWI) em parceria com a Roche Diagnóstica, revelou que sete em cada dez brasileiros com diabetes (70%) sentem que a doença afeta profundamente seu bem-estar emocional. O estudo, que ouviu 4.326 pessoas com diabetes em 22 países, incluindo 20% no Brasil, destacou que 78% dos entrevistados relatam ansiedade ou preocupação com o futuro, enquanto dois em cada cinco pacientes se sentem sós ou isolados devido à condição. Esses dados sublinham a urgência de abordagens que considerem não apenas os aspectos clínicos, mas também a saúde mental dos pacientes.
O Impacto Emocional e Social do Diabetes na Rotina
O diabetes, caracterizado pela produção insuficiente ou má absorção de insulina, hormônio essencial para regular a glicose no sangue, pode levar a complicações graves no coração, artérias, olhos, rins e nervos. No Brasil, a situação é alarmante: o país ocupa a 6ª posição mundial em casos de diabetes, com 16,6 milhões de adultos diagnosticados, conforme o Atlas Global do Diabetes 2025 da International Diabetes Federation (IDF).
Os desafios diários impostos pela doença são muitos. A pesquisa do GWI/Roche aponta que 56% dos brasileiros com diabetes sentem sua capacidade de passar o dia fora de casa limitada. Quase metade (46%) enfrenta dificuldades em situações comuns, como trânsito ou reuniões prolongadas, e 55% não acordam plenamente descansados devido às variações glicêmicas noturnas. Para pacientes com diabetes tipo 1 (DM1), uma doença crônica hereditária que destrói as células produtoras de insulina, o impacto emocional é ainda mais acentuado, afetando 77% deles significativamente.
A Busca por Previsibilidade e Autonomia no Tratamento
Apesar dos avanços na medicina, a maioria dos pacientes não se sente plenamente atendida pelo modelo atual de cuidado. Apenas 35% se consideram muito confiantes no gerenciamento da própria condição, evidenciando uma lacuna no controle e na previsibilidade da doença. É nesse contexto que a tecnologia surge como uma esperança.
Cerca de 44% dos consultados defendem que tecnologias mais inteligentes, capazes de prever mudanças nos níveis de glicose, deveriam ser priorizadas para a prevenção de complicações. Além disso, 46% dos usuários de medidores tradicionais, como os glicosímetros de ponta de dedo, acreditam que os sensores de monitoramento contínuo de glicose (CGM) deveriam ser amplamente adotados por sua capacidade de oferecer alertas preditivos.
A funcionalidade mais desejada em sensores com inteligência artificial (IA) é a capacidade de prever níveis futuros de glicose, apontada por 53% dos entrevistados, número que salta para 68% entre pacientes com diabetes tipo 1. Essa previsibilidade daria a 56% dos brasileiros a sensação de controle sobre a doença e, para 48%, a redução de picos e quedas inesperadas de glicose aumentaria a qualidade de vida. Para pacientes com DM1, 95% consideram ferramentas que preveem hipoglicemia e hiperglicemia como fundamentais.
Tecnologia e o Cenário de Acesso no Brasil
O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), André Vianna, reforça a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento médico contínuo. Para ele, a tecnologia é um diferencial, especialmente para pacientes com diabetes tipo 1, cuja glicemia oscila intensamente. “O ideal para esses pacientes é ter um monitoramento contínuo da glicose por meio de sensores que já estão amplamente disponíveis em grande parte do mundo”, explica o endocrinologista. Ele destaca que esses sensores permitem ao paciente antecipar o que acontecerá nas próximas horas, possibilitando uma atitude preventiva.
Vianna aponta que o uso desses sensores não só melhora a saúde dos pacientes, mas também diminui os custos para o sistema público de saúde, com menos internações e idas a prontos-socorros. No entanto, no Brasil, esses aparelhos são mais acessíveis a pessoas de maior poder aquisitivo. Embora existam quatro empresas que comercializam esses dispositivos no país, a disponibilização em larga escala pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não ocorreu, diferentemente de países como França e Reino Unido, onde são oferecidos gratuitamente ou por meio de operadoras de saúde privadas, como nos Estados Unidos.
Desafios e Perspectivas para a Saúde Pública
Apesar dos evidentes benefícios e da defesa dos pacientes e especialistas, o acesso a essas tecnologias no sistema público de saúde brasileiro enfrenta obstáculos. Em janeiro de 2025, o Ministério da Saúde, por meio da Portaria número 2 da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico Industrial da Saúde, tornou pública a decisão de não incorporar o monitoramento contínuo da glicose por escaneamento intermitente para pacientes com diabetes mellitus tipos 1 e 2 no SUS.
Contrariando essa decisão, em dezembro do ano passado, a Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 323/25, que visa obrigar o SUS a fornecer gratuitamente esses dispositivos. A proposta ainda aguarda análise das comissões de Finanças e Tributação, e de Constituição e Justiça e de Cidadania, antes de seguir para o Senado e, eventualmente, virar lei. O Ministério da Saúde, procurado pela Agência Brasil, não se pronunciou sobre o tema.
A incorporação de tecnologias como os sensores de glicose e a inteligência artificial tem o potencial de transformar a vida de milhões de brasileiros com diabetes, aliviando a carga diária da doença e o estresse constante da incerteza. A discussão sobre o acesso a essas ferramentas é crucial para garantir que a saúde e o bem-estar não sejam privilégios, mas direitos acessíveis a todos. Continue acompanhando o Região 5 News para se manter informado sobre este e outros temas relevantes que impactam a sociedade, com análises aprofundadas e conteúdo de qualidade.