O Brasil deu um passo significativo em sua estratégia de desenvolvimento tecnológico ao se juntar a outras 28 nações na assinatura do documento que estabelece a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico). Anunciada em julho de 2026 e com sede em Xangai, na China, a iniciativa visa fomentar uma governança global da IA baseada em modelos de código aberto. Essa abordagem permite que empresas e organizações de qualquer porte se apropriem da tecnologia, promovendo uma democratização do acesso e do desenvolvimento.
A adesão brasileira à Waico ocorre em um cenário de intensa disputa geopolítica pela liderança em inteligência artificial. A proposta chinesa, focada na colaboração e no código aberto, contrasta diretamente com a visão dos Estados Unidos. O projeto norte-americano, conhecido como Pax Silica, busca consolidar o controle sobre as cadeias de suprimento de semicondutores, minerais críticos e energia, reunindo apenas “aliados confiáveis” da Casa Branca para moldar o futuro da IA.
A Waico e a busca por uma governança inclusiva
A criação da Waico representa um esforço para estabelecer um modelo de governança da inteligência artificial que seja mais inclusivo e transparente. Ao promover o desenvolvimento de tecnologias de IA com código aberto, a organização busca evitar a concentração de poder e conhecimento nas mãos de poucas corporações ou países. Essa filosofia é vista como crucial para garantir que os benefícios da IA sejam distribuídos de forma mais equitativa globalmente.
Especialistas em inteligência artificial consultados pela Agência Brasil destacam que a participação na Waico oferece uma oportunidade ímpar para o Brasil fortalecer sua própria soberania digital. No entanto, essa aliança exige um “dever de casa” robusto, como ressaltou o professor Sérgio Amadeu da Silveira, da Universidade Federal do ABC (UFABC). Para ele, o país, com sua dimensão e importantes centros de pesquisa, possui condições para trilhar um caminho de desenvolvimento autônomo na área.
Soberania digital: o desafio do Brasil na IA
Apesar do potencial, o Brasil enfrenta desafios significativos para consolidar sua soberania digital. Sérgio Amadeu aponta a necessidade de desenvolver infraestrutura crítica em IA, incluindo o controle sobre os dados produzidos no país. Ele exemplifica que, mesmo com investimentos em projetos de pesquisa, grande parte dos recursos seria direcionada para o armazenamento em nuvens de grandes empresas de tecnologia, como a Amazon ou a Huawei, em vez de fortalecer a expertise e a infraestrutura nacional.
“Eu não tenho infraestrutura disponível aqui que me permita que os pesquisadores, as universidades e o próprio governo, em vez de sustentar big techs estrangeiras, gaste recursos criando expertise e infraestrutura no nosso país para processamento e armazenamento de dados, que nos dê um poder computacional grande”, comentou o professor, sublinhando a urgência de investimentos internos.
O especialista em governança de IA Ettore Arpini, fundador da organização Plures, que apoia a formação de profissionais na área, reforça que o Brasil tem a capacidade de ser um ator chave na geopolítica da IA. Sua posição permite transitar entre as iniciativas chinesas e ocidentais, desde que a inteligência artificial seja compreendida não apenas como uma política setorial, mas como uma vantagem geopolítica e econômica, capaz de impulsionar a prosperidade nacional.
A visão ocidental: Pax Silica e o controle de cadeias
Em contrapartida à proposta da Waico, a iniciativa Pax Silica dos Estados Unidos busca consolidar o controle sobre os pilares da IA. Essa visão foi explicitada em um artigo do subsecretário de Estado dos EUA para Assuntos Econômicos, Jacob Helberg, que criticou abertamente o conceito de “soberania digital” defendido pela ONU e por países como o Brasil. Helberg argumenta que a tentativa de cada nação de possuir sua própria infraestrutura de IA levaria a uma “mediocridade sincronizada”, enquanto as empresas americanas continuariam a inovar e a “inventar o futuro”.
Essa perspectiva reflete uma estratégia de concentração de poder tecnológico, onde o acesso e o controle sobre os recursos essenciais para a IA – como minerais, dados e energia – são vistos como instrumentos de influência global. A disputa entre esses dois modelos de governança da IA, um mais aberto e colaborativo e outro mais restritivo e focado em alianças estratégicas, define o cenário atual da geopolítica tecnológica.
O papel do Brasil na geopolítica da IA
O governo brasileiro tem defendido uma postura de independência, buscando dialogar com todas as iniciativas que possam contribuir para a soberania digital do país. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem reiterado em fóruns multilaterais que a IA não pode ser um privilégio de poucos ou um instrumento de manipulação, defendendo uma governança intergovernamental onde todos os estados tenham voz e assento. A complexidade dessa posição é um reflexo da importância da IA, uma tecnologia que, segundo especialistas e o próprio secretário-geral da ONU, António Guterres, moldará o futuro da humanidade, apresentando tanto a maior oportunidade quanto um dos maiores riscos do século XXI.
Nesse contexto dinâmico, o Brasil se posiciona como um ator relevante, capaz de influenciar os rumos da governança global da inteligência artificial. Para que essa influência se traduza em benefícios reais para a sociedade brasileira, é fundamental que o país invista em pesquisa, desenvolvimento e infraestrutura, garantindo que a tecnologia seja uma alavanca para a prosperidade e não uma fonte de dependência. Continue acompanhando o Região 5 News para análises aprofundadas e informações relevantes sobre este e outros temas que impactam o seu dia a dia.